Sobre como reduzir a defasagem genética nos rebanhos bovinos brasileiros

Existe diferença entre os potenciais genéticos dos animais que fazem parte dos rebanhos elites (ou Núcleo) e dos animais que fazem parte dos rebanhos comerciais. Na prática, se um grupo representativo de animais que fazem parte do Núcleo fosse colocado sob as mesmas condições de criação de outro grupo representativo de animais do estrato Comercial, a produção do primeiro grupo seria maior do que a produção do segundo grupo (Figura 1).

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Figura 1. Produções de animais de rebanhos Núcleo e Comercial.

Essa diferença pode ser quantificada pela comparação dos desempenhos (peso, produção de leite, etc) dos dois grupos sob as mesmas condições de criação, e nesse caso seria expressa na unidade da característica avaliada. Ou pode também ser quantificada sob a forma do tempo necessário para que os animais do estrato Comercial alcancem o mesmo nível de produção dos animais do Núcleo. A diferença no desempenho, ou no tempo necessário para que o estrato Comercial apresente a mesma produção do estrato Núcleo, pode ser denominada defasagem genética. Estimou-se que a defasagem genética na bovinocultura de corte brasileira era de 15 – 20 anos (Alves, R.G.O.; Silva, L.O.C.; Euclides Filho, K.; Figueiredo, G.R. 1999. Disseminação do melhoramento genético em bovinos de corte. Revista Brasileira de Zootecnia, v.28, p.1219-1225, ). Ou seja, os rebanhos comerciais de bovinos de corte estavam 15 – 20 atrasados em relação aos rebanhos do Núcleo. Essa defasagem pode ser ainda maior na bovinocultura de leite em função de diferenças nas taxas reprodutivas, intervalos de gerações e intensidades de seleção. É importante entender as causas e as formas de reduzir essa defasagem para que as cadeias produtivas sejam beneficiadas de maneira mais rápida dos ganhos obtidos com a seleção.

A defasagem genética existe porque a seleção não é realizada em todos os rebanhos, porque a transferência do material genético superior (produzido no Núcleo) para os estratos inferiores (Figura 2) não é instantânea, e porque a transferência nem sempre é realizada no sentido correto.

 

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Figura 2. Modelo tradicional de fluxo gênico em programas de melhoramento genético. Os rebanhos que fazem parte do Núcleo praticam a seleção, são autossuficientes em termos de material genético, e transferem o material genético excedente (geralmente machos ou sêmen) para os estratos inferiores. Os rebanhos que fazem parte do estrato Multiplicador dependem de material genético fornecido pelo Núcleo (especialmente machos ou sêmen), multiplicam esse material e fornecem material genético (geralmente machos) para o estrato Comercial. O estrato Comercial é o usuário final do material genético produzido no Núcleo. Os rebanhos do estrato Comercial são os maiores fornecedores de carne e leite para o consumidor final.

Para realizar da seleção, é necessário definir o objetivo e os critérios de seleção, medir os candidatos, identificar os potenciais genéticos dos animais e permitir que os indivíduos de méritos genéticos superiores deixem mais descendentes em relação à média da população. Isso demanda a execução de procedimentos especiais (identificação individual, mensurações mais frequentes, arquivamento zootécnico, etc), exige assistência técnica especializada, e aumenta o custo de produção nos rebanhos do Núcleo, em relação aos rebanhos do estrato Comercial. O aumento no custo precisa ser compensado pela maior eficiência produtiva e pela agregação de valor nos animais de mérito genético superior e pode inviabilizar a transferência de material genético do Núcleo diretamente para o estrato Comercial.

Nos rebanhos do Núcleo, é importante que os animais superiores produzam seus descendentes (e sua reposição) antes de serem transferidos para os estratos inferiores. Quanto mais rápido os animais superiores deixarem descendentes (e sua reposição) na população, mais rápido eles podem ser transferidos para o estrato seguinte.

Além da velocidade de transferência do material genético ao longo dos estratos, é necessário considerar a eficiência da transferência. Numa época em que o único método de reprodução economicamente viável ao alcance dos produtores comerciais era a monta natural, o número de bezerros produzidos por um touro era limitado pela exigência de sua presença física, bem como por questões inerentes à própria biologia da espécie. Então, o excedente de material genético dos rebanhos do Núcleo não era suficiente para atender a demanda dos rebanhos do estrato Comercial. Com isso, surgiu um estrato especializado na multiplicação de material genético superior – o Multiplicador.

Os rebanhos do estrato Multiplicador tornaram-se os destinos do excedente de material genético dos rebanhos do Núcleo. O surgimento do estrato Multiplicador permitiu a produção de material genético superior em maior quantidade, com um preço acessível, para os rebanhos do estrato Comercial.

Contudo, o estrato Multiplicador funciona como um intermediário entre aqueles que desenvolvem o material genético (Núcleo) e os principais usuários (Comercial). Esse estrato pode atrasar a transferência do material genético e, de certa forma, transferir material genético de baixa qualidade para o estrato Comercial. Mesmo não sendo o principal responsável pela seleção, é reconhecido que os rebanhos multiplicadores praticam a seleção e podem usar critérios e objetivos de seleção diferentes daqueles adotados no Núcleo. Para garantir que o material genético utilizado para produção de carne e leite no estrato Comercial seja adequado para atender às demandas dos consumidores é fundamental que todos os estratos envolvidos no fluxo de gênico estejam alinhados, seguindo o mesmo objetivo de seleção.

Nos dias de hoje, o aumento da competitividade entre e dentro das cadeias produtivas têm pressionado os produtores comerciais a melhorar a eficiência de seus processos produtivos. Em paralelo, a melhoria da eficiência e a redução dos custos das biotécnicas reprodutivas (como inseminação artificial, e inseminação artificial em tempo fixo) tem facilitado o acesso dos produtores que fazem parte do estrato Comercial ao material genético excedente (sêmen, principalmente) dos rebanhos do Núcleo (Figura 3). Isso reduzirá significativamente a defasagem genética, aumentará a demanda de material genético do Núcleo e, ao mesmo tempo, reduzirá o mercado para os rebanhos multiplicadores.

 

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Figura 3. Modelo de fluxo gênico em programas de melhoramento genético composto pelos rebanhos do Núcleo e do estrato Comercial. O aumento da eficiência e a redução dos custos das biotécnicas reprodutivas permitirão a transferência de material genético diretamente dos rebanhos do Núcleo para os rebanhos do estrato Comercial, e contribuirão para reduzir a defasagem genética na cadeia produtiva.

Os rebanhos multiplicadores que estiverem atentos à essas mudanças poderão melhorar seus processos, e se forem eficientes nessa transição, passarão a compor o grupo de selecionadores do Núcleo. O melhor caminho para alguns rebanhos multiplicadores poderá ser a produção comercial de carne ou leite. Outros rebanhos do estrato Multiplicador continuarão a atender a demanda menor de touros do estrato Comercial. Os rebanhos multiplicadores continuarão a ser importantes para as raças sintéticas, mas mesmo assim podem precisar de adaptações. Eles irão utilizar o material genético dos rebanhos do Núcleo (de raças puras), realizarão os cruzamentos, e oferecerão os reprodutores das raças sintéticas aos rebanhos do estrato Comercial.

De qualquer forma, as mudanças impostas pela competitividade e pelas demandas dos consumidores podem ser bem absorvidas por todos os elos das cadeias produtivas de carne e leite. Adaptações e novos processos precisam ser executados diante de um mercado em transformação, sempre mais competitivo. As mudanças são inevitáveis e aqueles que estiverem atentos e agirem de maneira correta e rápida sempre estarão na frente do mercado.

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