A ênfase deve ser no processo, e não no indivíduo

Recentemente eu li uma manchete do tipo: a raça tal perdeu o touro fulano. Também já li comentários do tipo: estão faltando touros bons nas centrais, porque o giro está sendo muito rápido (touros ficam com sêmen disponível por pouco tempo, e logo são substituídos por outros).

 

Isso me provocou uma reflexão a respeito de como as pessoas entendem um programa de melhoramento genético. Em um programa bem planejado (com objetivos bem definidos, em primeiro lugar), a ênfase deve ser no processo de melhoramento, e não no indivíduo.

Eu não tenho dúvidas de que alguns indivíduos realmente contribuem de maneira diferenciada para o desenvolvimento de uma população. Mas paro de escrever sobre um indivíduo por aqui. Em um programa de melhoramento genético eficiente, os animais mais jovens são superiores aos mais velhos. E quanto mais jovens são os reprodutores (machos e fêmeas), menor é o intervalo de gerações. E quanto menor o intervalo de gerações, maior o ganho genético anual. Por outro lado, as acurácias das predições dos valores genéticos dos animais mais jovens geralmente são menores que as acurácias das predições dos valores genéticos dos animais mais velhos (por causa da quantidade de informações disponíveis para cada um). E a acurácia também é um componente da equação do ganho genético. Mas quando se dá ênfase exagerada na acurácia (o frenesi pela utilização de touros provados), ocorre o aumento do intervalo de gerações e o ganho genético anual fica comprometido.

A utilização das ferramentas genômicas abre uma nova oportunidade para os programas de melhoramento que querem acelerar o ganho genético anual. Mas isso exige mudanças de pensamentos e de atitudes. Não adianta genotipar todos os animais do rebanho se não houver confiança nas informações que essas genotipagens irão incorporar no processo de tomada de decisão. A análise de um trabalho publicado sobre o impacto da seleção genômica em gado de leite (Holandes) nos Estados Unidos (García-Ruiz et al., 2016) permite entender como ela pode acelerar o ganho genético anual. Segundo os autores:

1) a seleção genômica realmente funciona. Os ganhos genéticos anuais aumentaram entre 50-100% para características produtivas (produção de leite, gordura e proteína) e entre 300-400% para características de baixa herdabilidade (escore de células somáticas, vida útil produtiva e taxa de prenhez nas filhas). Esses aumentos são relativos aos ganhos anuais obtidos antes da utilização da seleção genômica.

2) a redução do intervalo de gerações e o aumento do diferencial de seleção foram os elementos decisivos para esse aumento no ganho genético anual.

Com a predição dos valores genômicos dos candidatos a seleção ainda jovens, e com a utilização dos reprodutores o mais rápido possível, reduziu-se a idade média dos touros que são pais de touros de 7 para 2,5 anos; e a idade média das vacas que são mães de touros de 4 para 2,5 anos (García-Ruiz et al., 2016). Ou seja, não dá mais tempo de fazer pré-seleção, colher sêmen, distribuir sêmen, inseminar, acompanhar gestação, parto, cria, recria, inseminar novamente, esperar outra gestação, mais um parto, fazer controle leiteiro por 8-10 meses, enviar os dados para o programa de melhoramento genético, fazer avaliação genética e esperar a divulgação dos valores genéticos para, depois de tudo isso, decidir quais touros serão utilizados.

Para aproveitar o máximo possível das ferramentas genômicas, vai ser importante realizar a avaliação do maior número possível de candidatos (jovens) e utilizar aqueles que forem superiores imediatamente. A coleta de dados das progênies dos touros vai continuar sendo essencial para retroalimentar o sistema de avaliação genômica, para calibração das equações de predição e avaliação da eficiência do processo. Mas quando um touro possuir muitas filhas com fenótipos registrados, ele já terá sido substituído por outro superior. Não vai dar tempo de decorar os nomes dos touros – ou mesmo de publicar obituários – porque todos serão substituídos rapidamente. Mas para que essa substituição seja eficiente, haverá necessidade de produzir animais jovens superiores. E de onde virão esses animais?

Os rebanhos que possuírem processos de melhoramento genético bem feitos serão as principais fontes de touros jovens e melhoradores. O selecionador que for eficiente em produzir touros melhores a cada ano vai continuar prosperando. A figura do proprietário que ganha muito dinheiro com a venda de sêmen de um único reprodutor vai desaparecer. Aqueles que insistirem no frenesi de só utilizar touros “provados”, ficarão defasados. O mercado será implacável com os amadores.

 

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5 comentários sobre “A ênfase deve ser no processo, e não no indivíduo

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