Alguns porquês de termos vários sumários de touros da mesma raça

Um sumário é uma lista com os resultados das avaliações genéticas dos touros em uma população específica. Ele apresenta dados básicos dos animais, como datas de nascimento, genealogias e fazendas de origem, além das diferenças esperadas nas progênies (DEP) para características economicamente importantes, como crescimento, habilidade materna, reprodução e qualidade da carcaça. Também incluí acurácias, índices de classificação e outras informações que auxiliam na escolha de animais para o melhoramento genético dos rebanhos.

Os sumários são produtos dos programas de melhoramento genético. Cada programa assessora um conjunto específico de rebanhos que, juntos, formam a população utilizada nas avaliações genéticas. Esses rebanhos trabalham de forma colaborativa, contribuindo com dados (fenótipos) que permitem avaliar geneticamente animais pertencentes a diferentes criatórios e sistemas de produção.

A participação em um programa de melhoramento é, portanto, uma ação coletiva. Cada rebanho contribui para a coleta de dados utilizados na avaliação genética de animais de outros rebanhos e, ao mesmo tempo, se beneficia das informações geradas a partir da progênie de seus próprios animais. A troca de material genético entre rebanhos participantes amplia o número de observações disponíveis para análise e aumenta a acurácia das avaliações. Quanto maior o número de criadores coletando dados consistentes e de boa qualidade, maior será a confiabilidade dos resultados.

Cada programa tem seus técnicos, sua filosofia de trabalho, seus critérios e objetivos de seleção, suas ferramentas de gestão da variabilidade genética e de benchmarking, ele também tem seu próprio sumário. A raça Nelore, por ser a raça de maior efetivo populacional (animais puros e seus cruzamentos) no Brasil, é atendida pelo maior número de programas de melhoramento genético, e tem o maior número de sumários. Não seria difícil elencar dez sumários para essa raça. Como cada sumário reflete o desempenho de um grupo de touros em uma população específica (a população de rebanhos assessorados pelo programa), as diferenças genéticas entre touros e suas classificações mudam de um sumário para outro.

A interação genótipo x ambiente pode explicar parte destas mudanças. A progênie do touro A pode ter melhor desempenho que a progênie do touro B em um sistema de produção mais intensificado, e o inverso pode ser verdadeiro em um sistema de produção menos intensificado. A utilização de critérios, objetivos e intensidades de seleção diferentes contribuem para que as populações se distanciem geneticamente, e desta forma as diferenças entre os touros, avaliados em diferentes populações, também podem mudar. E isto, infelizmente, pode levar a algumas dificuldades e confusões nas interpretações dos resultados.

As confusões aumentam quando consideramos que os sumários são ferramentas comerciais importantes. Parte dos compradores de touros e sêmen para produção de gado comercial já sabe que participar de um programa de melhoramento é um requisito importante para certificação dos animais dos rebanhos fornecedores de genética, e inclusive já têm suas preferências quanto aos critérios de seleção e programas de melhoramento – mesmo não fazendo parte de nenhum deles. Assim, os animais bem classificados nos principais sumários são disputados pelas centrais de inseminação artificial, os rebanhos com animais bem classificados são mais valorizados e a pressão comercial para que os fornecedores de genética tenham seus animais listados nos sumários dos principais programas faz com que eles se associem a estes programas.

Quase todos os principais fornecedores de genética estão associados a mais de um programa de melhoramento. Entretanto, eles podem optar por dar mais atenção às recomendações daquele(s) programa(s) mais alinhado(s) com suas expectativas, ou optar por seguir seus próprios critérios e objetivos de seleção. Ter de estar associado a mais de um programa de melhoramento genético pode tornar as operações dos selecionadores mais complexas e dispendiosas. Mas ter um único sumário de touros não parece ser viável e nem ser a saída mais inteligente para a pecuária nacional.

Em meados da década de 2000, quando o número de características avaliadas era menor que o número atual, houve uma iniciativa de unificação de sumários, capitaneada pela Sociedade Brasileira de Melhoramento Animal e por alguns dos principais programas de melhoramento genético. A iniciativa não funcionou. Mais recentemente, outras iniciativas também não avançaram. Eis algumas possíveis razões, não necessariamente nesta ordem de importância:

Os programas operam de formas diferentes. As estruturas físicas, computacionais e de recursos humanos variam de um programa para o outro. O processo de avaliação genética unificado poderia ser conduzido por um agente independente ou poderia haver compartilhamento de responsabilidades e ações entre os programas envolvidos. Atualmente, não existe um agente independente que possa conduzir este processo e as dificuldades de fazer uma divisão justa de responsabilidades inviabilizam a segunda alternativa.

Os programas funcionam em velocidades diferentes. Os processos de coleta de dados, transferência ao longo da cadeia (criador → programa → criador) e análise são diferentes. Os programas definem as frequências de avaliações genéticas conforme suas condições e demandas.

Existem diferenças técnicas entre os programas. Alguns programas têm critérios de seleção específicos que funcionam como diferenciais competitivos para seus clientes. Numa avaliação unificada/conjunta, todos os rebanhos teriam seus animais avaliados para todos estes critérios – reduzindo a competitividade entre os rebanhos e entre os programas.

Os pontos fortes de cada programa podem ser distintos. Em alguns casos, o diferencial competitivo está na qualidade e volume de dados coletados ao longo de décadas. Em outros, as ferramentas de gestão da variabilidade genética ou os sistemas de acasalamento representam o principal avanço. Em outros ainda, a qualificação técnica das equipes envolvidas e a capacidade de interação com os criadores são fatores determinantes para o sucesso das avaliações e para a implementação efetiva das estratégias de seleção.

Apesar das razões citadas anteriormente, o que se observou nestes mais de vinte anos após a primeira iniciativa de unificação de sumários foi o aumento da competição entre os programas de melhoramento genético e uma evolução genética significativa na raça Nelore. Os programas de melhoramento são executados por empresas (privadas, públicas ou parcerias) que procuram contribuir para a melhoria da produção de carne bovina por meio da promoção do melhoramento genético dos rebanhos. Cada programa – empresa desenvolve e oferece um conjunto diferenciado de ferramentas e soluções parar auxiliar os rebanhos assessorados na promoção do melhoramento genético de maneira mais eficiente. O sumário de touros é apenas uma dessas ferramentas.

Além dos sumários, os programas oferecem apoio técnico qualificado para delineamento de projetos de melhoramento em rebanhos de seleção e comerciais, ferramentas de identificação de novos materiais genéticos, de coleta de dados, de gestão dos resultados das avaliações genéticas, de acasalamento, de gerenciamento da variabilidade genética, de avaliação da evolução do rebanho, de comparações de um rebanho com grupos específicos (benchmarking), treinamentos para técnicos e criadores.

Graças a esta necessidade de se manterem competitivos, os programas desenvolveram critérios de seleção relacionados com precocidade, fertilidade, qualidade da carcaça e eficiência capazes de promover mudanças genéticas e econômicas significativas, viabilizaram a aplicação de ferramentas genômicas para avaliação genética e seleção precoce de reprodutores com maior assertividade. Os programas certamente contribuíram para redução do intervalo de gerações, qualificação de técnicos e criadores, conscientização da importância da utilização de material genético superior, redução da defasagem genética entre os rebanhos de seleção e os rebanhos comerciais, e melhoria de indicadores de produção e econômicos da bovinocultura de corte.

Caso existisse apenas um único sumário para toda a raça, muitos dos diferenciais competitivos entre programas tenderiam a desaparecer. Com a redução dessa competição, o incentivo para desenvolver novas metodologias, critérios de seleção e ferramentas de análise também provavelmente diminuiria. A história recente do melhoramento genético mostra que a existência de múltiplos programas estimulou o desenvolvimento de novas características, o uso de tecnologias genômicas e a criação de ferramentas mais eficientes de gestão genética.

A existência de vários sumários de touros para uma mesma raça não deve ser vista necessariamente como um problema, mas como uma consequência natural da diversidade de programas de melhoramento e das diferentes populações nas quais os animais são avaliados. Cada programa reúne rebanhos, técnicos, critérios de seleção e estratégias próprias, formando sistemas cooperativos de geração e utilização de dados. Ao mesmo tempo, a coexistência de diferentes programas cria um ambiente de competição saudável que estimula inovação metodológica, desenvolvimento de novas ferramentas e aprimoramento contínuo das avaliações genéticas. Nesse contexto, os sumários de touros não são apenas listas classificatórias de reprodutores, mas a expressão dos diferentes caminhos pelos quais os programas buscam contribuir para o avanço genético e a sustentabilidade da bovinocultura de corte.


Faça do controle leiteiro um hábito na sua fazenda

O controle leiteiro (Figura 1) é a ferramenta mais importante para tomada de decisões relacionadas ao manejo nutricional e melhoramento genético de bovinos de leite. Os registros de produção e de qualidade do leite são fundamentais para determinação das exigências nutricionais das vacas e, consequentemente, para a formulação de dietas. Esses dados também são importantes para avaliação genética dos animais (touros e vacas). A seleção, ou o descarte, de um animal sem o conhecimento do seu valor genético (ou, pelo menos da sua produção) é um tiro no escuro. Você pode descartar animais que estão entre os melhores do seu rebanho por falta de informação.

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Figura 1. O controle leiteiro é o processo de mensuração da produção de leite de uma vaca em um período de 24 horas. Além da produção total de leite, é possível avaliar sua composição (p.ex.: percentuais de proteína, de gordura, de lactose, de sólidos totais, contagem de células somáticas). Esses dados são fundamentais para avaliação do potencial de produção dos animais e para a tomada de decisões.

Não é raro encontrar donos de vacas que ficam falando de seleção, de genômica, de teste de progênie sem, sequer, fazer controle leiteiro dos animais do seu próprio rebanho. Isso precisa mudar!

A disseminação da prática do controle leiteiro nas fazendas brasileiras terá impacto favorável em toda a cadeia produtiva. Em primeiro lugar, o benefício será dentro da fazenda. Com os dados disponíveis, os produtores poderão organizar melhor os lotes de vacas de acordo com a produção. Isso vai facilitar a formulação das dietas, reduzir o desperdício de ração com vacas de baixa produção e aumentar a eficiência por meio da alimentação adequada daquelas vacas que produzem mais leite. Se os dados da produção leiteira forem utilizados para descarte de animais, o produtor poderá escolher para si as melhores vacas e, adicionalmente, terá condições de conhecer melhor as vacas que serão vendidas. Com isso, o preço dos animais de venda poderá ser definido de forma mais justa para os dois lados, já que vai ser possível definir o valor do animal conforme sua produção.

Em segundo lugar, o aumento da prática do controle leiteiro nas fazendas e posterior análise desses dados –  por programas de melhoramento genético ou por instituições envolvidas na cadeia produtiva, vai dar origem a informações importantes. Os dados do controle leiteiro são a matéria prima mais preciosa para avaliação genética. Quanto mais animais com controle leiteiro, maior será o número de vacas e touros avaliados e maior será a acurácia das avaliações. Naturalmente, os ganhos genéticos poderão ser maiores e os benefícios retornarão para as próprias fazendas que executaram o controle leiteiro. Os dados de controle também poderão ser analisados por instituições de pesquisa e por outras envolvidas com o setor. As instituições de pesquisa podem gerar novos conhecimentos relacionados com melhoramento genético, nutrição, saúde e manejo de bovinos leiteiros, e podem contribuir para a formação e qualificação de técnicos para atuação na área. A análise dos dados obtidos nas fazendas também pode gerar informações úteis para o planejamento, negociação de contratos, e definição de políticas para fomentar o setor.

Todas as vacas que fazem parte do mesmo lote de manejo devem ser controladas. O controle seletivo – aquele no qual as vacas a serem avaliadas são escolhidas é uma das piores estratégias que pode ser utilizada em uma fazenda. Apenas para demonstrar esse fato, vamos considerar um lote de manejo com dez vacas, cujas produções diárias são apresentadas na Figura 2.

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Figura 2. Dados de produção de leite de dez vacas do mesmo lote de manejo. A realização do controle leiteiro não seletivo é a maneira correta para obter dados zootécnicos para planejamento das atividades pecuárias.

Considerando todas as observações (controle não seletivo, Figura 2), a média do lote é 15 kg/dia e é possível observar cinco vacas com produção acima da média (1, 2, 7, 9 e 10) e outras cinco vacas com produção abaixo da média (3, 4, 5, 6 e 8). Se o criador tivesse feito controle leiteiro seletivo apenas das sete melhores vacas (1, 2, 4, 5, 7, 9 e 10), a média do lote seria 17,6 kg/dia e, agora, o lote teria apenas três vacas (1, 2 e 10) acima da média (Figura 3). Com o controle seletivo, todas as vacas do lote – inclusive as melhores – são penalizadas. Essa estratégia diminui a variabilidade e penaliza todas as vacas que foram escolhidas para participar do controle.

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Figura 3. Desvios da produção individual em relação as médias da produção de leite sem controle seletivo ou com controle seletivo. Quando se realiza controle leiteiro seletivo a média do lote é superestimada e os desvios (produção de cada animal – média do lote) são influenciados. Sob controle seletivo é possível observar: 1) as diferenças entre as vacas ficam menores; 2) as vacas 7, 9 e 10, cujas produções estavam acima da média, agora estão abaixo da média; 3) até a superioridade da vaca 1 em relação à média do lote é reduzida. As informações provenientes de rebanhos com controle leiteiro seletivo não são confiáveis, pois elas não refletem a realidade do rebanho. Refletem apenas a realidade daquelas vacas que foram escolhidas para controle.

Infelizmente, alguns criadores praticam o controle leiteiro seletivo. Eles o fazem para reduzir o custo com as mensurações ou para esconder animais de baixa produção. Independente da motivação, os rebanhos desses criadores são os mais penalizados em uma avaliação genética. Felizmente, graças aos dados daqueles criadores que não fazem controle seletivo, o modelo estatístico utilizado na avaliação genética (modelo animal) utiliza ponderações baseadas nos dados de indivíduos aparentados e que foram avaliados em outros rebanhos e isso reduz o viés (pelo menos para aqueles animais com muitos parentes avaliados em outros rebanhos) na avaliação genética. Fazer o controle não seletivo beneficia principalmente os animais do próprio rebanho.

Só existe uma coisa pior que o controle leiteiro seletivo. É o controle leiteiro seletivo associado ao tratamento preferencial não informado. Qualquer estratégia utilizada para aumentar a produção de leite de uma vaca e não declarada pelo criador no momento do controle pode ser considerada como tratamento preferencial. Pode ser uma dieta diferenciada, tratamento hormonal ou maior número de ordenhas. O efeito do tratamento preferencial pode variar de uma estratégia para outra, mas exemplificar seu impacto com um incremento em 15% na produção de uma vaca não é uma situação irreal. Considere que além do controle seletivo (vacas 1, 2, 4, 5, 7, 9 e 10), um criador optou por submeter uma das vacas (vaca 2) a um tratamento preferencial e sua produção foi de 24 kg/dia (Figura 4).

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Figura 4. Dados de produção de leite de vacas em um lote com controle seletivo e tratamento preferencial não informado da vaca 2. Ao realizar o controle leiteiro seletivo e tratamento preferencial, a média do lote passou para 18 kg/dia (média viesada) e todas as outras vacas (1, 4, 5, 7, 9 e 10) foram penalizadas.

Ao agrupar vacas que receberam condições de criação diferentes (tratamento preferencial) em um mesmo lote, a estimativa da média passa a não representar mais as condições de criação daqueles animais e todas as comparações em relação à média também ficam prejudicadas. Além disso, todas as comparações envolvendo vacas com tratamentos diferentes também ficam injustas. Note, no exemplo da Figura 4, que a melhor vaca do lote não é mais a vaca 1, e sim a vaca 2. As produções observadas dessas vacas não deveriam ser comparadas sem a realização dos ajustes pertinentes, mas não é possível realizar esses ajustes porque o tratamento preferencial da vaca 2 não foi informado. Realizar tratamento preferencial sem informá-lo no momento do controle é um grande desserviço prestado por aquele que omite tal informação.

O controle leiteiro pode ser realizado por técnicos credenciados ou por funcionários da própria fazenda. O controle leiteiro oficial, realizado por técnicos credenciados por associações de criadores e respeitando-se as normas oficiais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento é uma boa alternativa para mensuração da produção dos animais. Dessa forma é possível reduzir erros de mensuração no dia do controle, mas não é possível reduzir o risco dos tratamentos preferenciais realizados em dias anteriores e que deixam efeitos residuais sobre a produção de leite. Em muitos casos, o produtor paga os custos do controle leiteiro oficial (taxas da associação e despesas com o controlador), e isso inibe a disseminação desse tipo de controle. Os resultados também podem ser interpretados de maneira inadequada quando utilizados para comparação de animais de lotes diferentes (sejam esses lotes de uma mesma fazenda ou de fazendas diferentes) sem as devidas considerações (Figura 5).

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Figura 5. Dados de produção de leite de vacas em dois lotes. Cada barra representa a produção de uma vaca. As produções das vacas do lote 1 não podem ser comparadas diretamente com as produções das vacas do lote 2 porque as condições de criação variam de um lote para o outro. Duas vacas com a mesma produção (vaca 3 do lote 1 e vaca 2 do lote 2) podem ter potencias genéticos muito diferentes, pois apresentaram a mesma produção sob condições de criação distintas. Por outro lado, vacas com produções diferentes não possuem, necessariamente, potenciais genéticos diferentes. O valor genético é o indicador mais adequado para comparar animais que não foram criados sob as mesmas condições.

No controle leiteiro de fazenda, um funcionário da própria fazenda é treinado e responsável pela mensuração da produção de leite de acordo com as normas definidas. Esse tipo de controle é mais comum em fazendas comerciais, que utilizam esses dados para tomar decisões de manejo. Atualmente, com a disponibilidade de ordenhadeiras mecânicas e sistemas automatizados, há fazendas que possuem dados de produção diária e individualizado. É mais barato executar o controle leiteiro de fazenda. Infelizmente, algumas associações de criadores não aceitam os dados medidos por funcionários da fazenda para realizar a avaliação genética dos animais. Mas essa realidade pode mudar na medida se houver um esforço conjunto para capacitar os funcionários das fazendas para realizar as mensurações de maneira padronizada e para que as associações recebam esses dados.

O controle leiteiro, independente de ser oficial ou de fazenda, deve respeitar as normas definidas e  ser conduzido honestamente. Como já foi exposto, controle leiteiro seletivo e os tratamentos preferenciais não informados prejudicam, em primeiro lugar, aqueles que os praticam.

Prepare a fazenda, e não as vacas, para o controle leiteiro. É importante que o controle leiteiro faça parte da rotina da fazenda. Sua execução não pode ser vista como um empecilho para as outras atividades. É necessário ter um funcionário que reconheça a importância desse procedimento e que saiba executar todas as ações corretamente. Uma balança, ou medidores nos sistemas de ordenha, são necessários para aferir a produção. Uma planilha de papel simples e eficiente para anotação dos dados referentes à identificação do animal, data do controle, lote de manejo, número de ordenhas, condição do animal, produção de leite (em cada ordenha e produção total) e observações gerais é fundamental para que o controle seja executado e registrado sem dificuldades. Todos dados obtidos precisam ser transferidos para planilhas eletrônicas, ou sistemas de acompanhamento de rebanho, para que sejam analisados e gerem informações úteis para a fazenda. O correto arquivamento dos dados do controle leiteiro vai gerar uma base de dados zootécnicos históricos do rebanho, capaz de fornecer informações muito valiosas.

O dia de controle leiteiro deve ser um dia normal na fazenda. Nada deve mudar no manejo  das vacas, pois o controle serve para avaliar a produção sob as condições normais de produção. A execução do controle leiteiro não deve ser condicionada à geração de um relatório individual de lactação, que ser não for analisado e interpretado corretamente não serve para absolutamente nada. Ele é muito mais importante do que isso! A aferição da produção leiteira é útil como ferramenta de diagnóstico, de avaliação de resultados, de definição de metas e muito mais. Portanto, faça do controle leiteiro um hábito saudável na sua fazenda. Você só tem a ganhar com ele.

Entendendo as acurácias dos valores genéticos e genômicos nas avaliações atuais

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Foto: Preta Ribeiro.

Tatersal Rubico Carvalho, no Parque de Exposições Fernando Costa em Uberaba, cheio no dia 19 de agosto de 2019, para discussão do tema “Entendendo as acurácias dos valores genéticos e genômicos nas avaliações atuais”. A apresentação fez parte da programação técnica da 12ª edição da Expogenética.

Os valores genéticos são o somatório dos efeitos médios de substituição dos alelos que os animais possuem. Eles são preditos a partir da análise dos dados fenotípicos, genealógicos e de marcadores genéticos conhecidos – num processo chamado de avaliação genética. E existe uma estatística que representa a confiança que pode ser atribuída a estas predições – a acurácia. A acurácia pode ser utilizada como um indicativo de risco de mudança do valor genético predito de um animal, se mais informações forem adicionadas ao processo de avaliação genética.

Quanto maior a acurácia, menor o risco de mudança no valor genético predito. Quanto menor a acurácia, maior o risco de mudança (para pior ou para melhor) no valor genético predito. O conhecimento das implicações dos diferentes valores de acurácia podem ser utilizados por técnicos e selecionadores para controlar os riscos envolvidos com a utilização de animais de alto potencial genético – mas avaliados com baixa acurácia.

Além da palestra, os presentes participaram de uma rodada de discussões com representantes de diversos programas de melhoramento genético.

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Foto: Preta Ribeiro.

O material apresentado durante a palestra pode ser consultado neste link.

Se tiver interesse, leia mais sobre a utilização de touros jovens com boas avaliações genéticas, mas de acurácias baixas clicando aqui.

Você apostaria em touros jovens, com boas avaliações genéticas, mas de acurácias baixas?

O valor genético é o somatório dos efeitos dos alelos que um indivíduo possui, e que influenciam uma característica de interesse. Os valores genéticos podem ser preditos a partir de análises estatísticas (avaliações genéticas) que combinam os dados de fenótipo, de parentesco e de marcadores moleculares. Em geral, os resultados das avaliações genéticas são apresentados na forma de Diferenças Esperadas na Progênie (DEP). A DEP é a metade do valor genético.

Mas os valores genéticos verdadeiros dos candidatos à seleção não são conhecidos e o melhorista precisa obter predições (as melhores possíveis) desses valores para classificar e selecionar os animais. Além do valor predito, pode haver interesse em obter estatísticas relacionadas com a qualidade da predição. Uma dessas estatísticas é a acurácia. Conceitualmente, a acurácia é a correlação entre o valor genético verdadeiro (que é desconhecido) e o valor genético predito (obtido por meio da avaliação genética). Como o valor genético verdadeiro não é conhecido, só é possível obter estimativas da acurácia por meio de diferentes estratégias estatísticas e computacionais (que não serão tratadas neste texto).

A acurácia de um valor genético (ou de uma DEP) depende da quantidade de dados considerados na sua predição, da estrutura dos dados e da herdabilidade da característica. Os animais podem ser avaliados a partir dos dados de seus ancestrais, de parentes colaterais, de dados próprios, de dados de suas progênies, e de qualquer combinação desses tipos. Em geral, quanto maior a quantidade de dados (especialmente de progênies), maior a acurácia (Figura 1).

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Figura 1. Distribuições das acurácias dos valores genéticos preditos para peso aos 205 dias de idade (herdabilidade = 0,22) em bovinos Nelore. As acurácias são maiores para os touros, uma vez que existe maior quantidade de dados para avaliação dessa categoria. Por outro lado, a maior dispersão das acurácias também acontece na categoria de touros, uma vez que o número de progênies pode variar muito de um touro para outro.

Dois touros, com a mesma quantidade de filhos, podem ter acurácias diferentes porque os filhos de um deles podem estar mais bem distribuídos em vários rebanhos, do que os filhos de outro, que podem estar mal distribuídos em poucos rebanhos. Provavelmente, a acurácia será maior para os valores genéticos preditos do primeiro touro. Ainda, é possível ter a mesma quantidade de dados para duas características diferentes. Neste cenário, as acurácias associadas com os valores genéticos da característica de maior herdabilidade serão maiores que as acurácias dos valores genéticos daquela característica de menor herdabilidade.

Alguns usuários das avaliações genéticas e compradores de material genético (touros ou sêmen, por exemplo) preocupam-se com os valores das acurácias. Tal preocupação decorre do fato de que animais jovens, que ainda não possuem progênie, têm seus valores genéticos preditos com baixa acurácia. Na análise dos dados utilizados para elaboração da Figura 1, verificou-se que a média da acurácia dos valores genéticos preditos para peso aos 205 dias de idade (herdabilidade = 0,22) dos touros (n = 179) foi de 0,47, enquanto a acurácia para os produtos (n = 16.429, animais sem progênie) foi de 0,20. A acurácia também é interpretada como uma medida de risco, associada com mudanças nos valores genéticos preditos ao longo do tempo. Essa mudança nos valores genéticos pode ser avaliada comparando-se os valores genéticos preditos considerando-se apenas os dados dos candidatos à seleção (situação 1) com os valores genéticos preditos considerando-se os dados dos próprios animais e, também os dados de suas progênies (situação 2). Essa comparação pode ser visualizada na Figura 2.

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Figura 2. Médias dos valores genéticos preditos para peso aos 205 dias de idade em touros Nelore. Os valores genéticos foram preditos considerando-se apenas os dados fenotípicos obtidos até a safra de nascimento (e deram origem aos resultados apresentados com as barras mais claras – Nascimento) ou considerando-se os dados fenotípicos obtidos até o nascimento da primeira progênie (três anos após a safra de nascimento do touro. Resultados apresentados com as barras mais escuras – Progênie). As barras representam as médias dos valores genéticos de 5, 5, 7, 10, 6, 6, 6, 7, 9 e 8 touros, que nasceram nas safras 2005 a 2014, e tiveram suas primeiras progênies nascidas nas safras 2008 e 2017, respectivamente.

É possível notar, a despeito de uma mudança maior nas médias dos valores genéticos dos touros da safra 2006, que as oscilações das médias dos valores genéticos dos grupos de touros (comparando-se uma barra clara com uma barra escura, dentro da mesma safra de nascimento) são modestas e não representam risco significativo da utilização de touros jovens, com boas avaliações genéticas, mas de acurácias baixas. Vale ressaltar que os resultados apresentados se referem as médias dos valores genéticos de um grupo de touros utilizados em uma safra. Mas o que acontece com os valores genéticos de cada touro? Veja a Figura 3.

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Figura 3. Valores genéticos preditos para peso aos 205 dias de idade de touros Nelore, nascidos na safra 2008, com as primeiras progênies na safra 2011. As barras mais claras representam os valores genéticos preditos apenas com base nos dados obtidos até a safra 2008 (Nascimento). As barras mais escuras representam os valores genéticos preditos com base nos dados obtidos até a safra 2011 – quando houve o nascimento das primeiras progênies de cada touro (Progênie).

É possível perceber que o valor genético predito de um touro pode mudar conforme novos dados (das progênies, principalmente) são incorporados no processo de avaliação genética. Não é possível prever o sentido dessa mudança, mas é possível reduzir sua magnitude e o risco da utilização de touros jovens.

A definição correta de procedimentos de mensuração (idade de avaliação, pesagem, mensuração de perímetro escrotal, treinamento para atribuição de escores visuais, utilização de equipamentos calibrados adequadamente) e a correta formação e identificação de grupos de manejo, onde os animais receberão condições ambientais semelhantes, são elementos fundamentais para minimizar mudanças nas predições dos valores genéticos.

Adicionalmente, utilizar grupos de touros jovens – ao invés de um único touro jovem – é uma estratégia que reduz o risco porque as oscilações individuais em sentidos diferentes (veja touros 2 e 3, da Figura 3) podem se neutralizar e não provocar qualquer mudança significativa nas médias dos valores genéticos preditos de um grupo de touros jovens (Figura 2, safra 2008).

A incorporação de dados de progênie no processo de avaliação genética contribui para o aumento da acurácia das predições (Figura 4).

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Figura 4. Médias das acurácias associadas aos valores genéticos preditos para peso aos 205 dias de idade de touros Nelore. As acurácias foram obtidas considerando-se apenas os dados fenotípicos obtidos até a safra de nascimento (e deram origem aos resultados apresentados com as barras mais claras – Nascimento) ou considerando-se os dados fenotípicos obtidos até o nascimento da primeira progênie (três anos após a safra de nascimento do touro. Resultados apresentados com as barras mais escuras – Progênie). Vide Figura 2 para mais informações a respeito do número de touros.

Contudo, esperar muito tempo para utilizar um touro apenas quando seus valores genéticos estiverem associados com altas acurácias representa um risco para a evolução de um programa de melhoramento genético por dois motivos principais: 1) touros de acurácias muito elevadas possuem muitos filhos, geralmente são touros que já foram usados em quatro ou mais estações de reprodução, e contribuem para aumentar o intervalo de gerações – o que reduz o ganho genético anual; 2) se um touro já produziu muitos filhos, mas nenhum filho é superior a ele, é preciso reavaliar as estratégias do programa de melhoramento genético uma vez que espera-se que as médias das gerações mais avançadas sejam melhores que as médias das gerações mais antigas.

A utilização de touros jovens, de potencial genético superior, sempre será uma estratégia favorável para o melhoramento genético dos rebanhos. Se, por um lado, os valores genéticos desses animais jovens são preditos com baixa acurácia, um processo de seleção bem conduzido irá garantir que as novas gerações sejam sempre melhores que as gerações anteriores e que os riscos associados com a utilização de touros jovens sejam contornados pela expectativa de superioridade genética desses animais.

 

Aproveite para discutir mais sobre esse tema durante a 12a Expogenética, em Uberaba. No dia 19 de Agosto de 2019, será realizada uma mesa redonda sobre o tema “Entendendo a acurácia dos valores genéticos e genômicos nas avaliações atuais”. Clique aqui e confira a programação completa do evento.

Expogenetica2019

Agradecimento

Os resultados apresentados foram obtidos por meio de análises dos dados de bovinos Nelore, Linhagem Lemgruber, gentilmente cedidos pela Fazenda Mundo Novo, Uberaba – MG. O autor registra seu agradecimento ao Sr. Eduardo Penteado Cardoso e a todos os funcionários da Fazenda Mundo Novo pela disponibilização dos dados.