Alguns porquês de termos vários sumários de touros da mesma raça

Um sumário é uma lista com os resultados das avaliações genéticas dos touros em uma população específica. Ele apresenta dados básicos dos animais, como datas de nascimento, genealogias e fazendas de origem, além das diferenças esperadas nas progênies (DEP) para características economicamente importantes, como crescimento, habilidade materna, reprodução e qualidade da carcaça. Também incluí acurácias, índices de classificação e outras informações que auxiliam na escolha de animais para o melhoramento genético dos rebanhos.

Os sumários são produtos dos programas de melhoramento genético. Cada programa assessora um conjunto específico de rebanhos que, juntos, formam a população utilizada nas avaliações genéticas. Esses rebanhos trabalham de forma colaborativa, contribuindo com dados (fenótipos) que permitem avaliar geneticamente animais pertencentes a diferentes criatórios e sistemas de produção.

A participação em um programa de melhoramento é, portanto, uma ação coletiva. Cada rebanho contribui para a coleta de dados utilizados na avaliação genética de animais de outros rebanhos e, ao mesmo tempo, se beneficia das informações geradas a partir da progênie de seus próprios animais. A troca de material genético entre rebanhos participantes amplia o número de observações disponíveis para análise e aumenta a acurácia das avaliações. Quanto maior o número de criadores coletando dados consistentes e de boa qualidade, maior será a confiabilidade dos resultados.

Cada programa tem seus técnicos, sua filosofia de trabalho, seus critérios e objetivos de seleção, suas ferramentas de gestão da variabilidade genética e de benchmarking, ele também tem seu próprio sumário. A raça Nelore, por ser a raça de maior efetivo populacional (animais puros e seus cruzamentos) no Brasil, é atendida pelo maior número de programas de melhoramento genético, e tem o maior número de sumários. Não seria difícil elencar dez sumários para essa raça. Como cada sumário reflete o desempenho de um grupo de touros em uma população específica (a população de rebanhos assessorados pelo programa), as diferenças genéticas entre touros e suas classificações mudam de um sumário para outro.

A interação genótipo x ambiente pode explicar parte destas mudanças. A progênie do touro A pode ter melhor desempenho que a progênie do touro B em um sistema de produção mais intensificado, e o inverso pode ser verdadeiro em um sistema de produção menos intensificado. A utilização de critérios, objetivos e intensidades de seleção diferentes contribuem para que as populações se distanciem geneticamente, e desta forma as diferenças entre os touros, avaliados em diferentes populações, também podem mudar. E isto, infelizmente, pode levar a algumas dificuldades e confusões nas interpretações dos resultados.

As confusões aumentam quando consideramos que os sumários são ferramentas comerciais importantes. Parte dos compradores de touros e sêmen para produção de gado comercial já sabe que participar de um programa de melhoramento é um requisito importante para certificação dos animais dos rebanhos fornecedores de genética, e inclusive já têm suas preferências quanto aos critérios de seleção e programas de melhoramento – mesmo não fazendo parte de nenhum deles. Assim, os animais bem classificados nos principais sumários são disputados pelas centrais de inseminação artificial, os rebanhos com animais bem classificados são mais valorizados e a pressão comercial para que os fornecedores de genética tenham seus animais listados nos sumários dos principais programas faz com que eles se associem a estes programas.

Quase todos os principais fornecedores de genética estão associados a mais de um programa de melhoramento. Entretanto, eles podem optar por dar mais atenção às recomendações daquele(s) programa(s) mais alinhado(s) com suas expectativas, ou optar por seguir seus próprios critérios e objetivos de seleção. Ter de estar associado a mais de um programa de melhoramento genético pode tornar as operações dos selecionadores mais complexas e dispendiosas. Mas ter um único sumário de touros não parece ser viável e nem ser a saída mais inteligente para a pecuária nacional.

Em meados da década de 2000, quando o número de características avaliadas era menor que o número atual, houve uma iniciativa de unificação de sumários, capitaneada pela Sociedade Brasileira de Melhoramento Animal e por alguns dos principais programas de melhoramento genético. A iniciativa não funcionou. Mais recentemente, outras iniciativas também não avançaram. Eis algumas possíveis razões, não necessariamente nesta ordem de importância:

Os programas operam de formas diferentes. As estruturas físicas, computacionais e de recursos humanos variam de um programa para o outro. O processo de avaliação genética unificado poderia ser conduzido por um agente independente ou poderia haver compartilhamento de responsabilidades e ações entre os programas envolvidos. Atualmente, não existe um agente independente que possa conduzir este processo e as dificuldades de fazer uma divisão justa de responsabilidades inviabilizam a segunda alternativa.

Os programas funcionam em velocidades diferentes. Os processos de coleta de dados, transferência ao longo da cadeia (criador → programa → criador) e análise são diferentes. Os programas definem as frequências de avaliações genéticas conforme suas condições e demandas.

Existem diferenças técnicas entre os programas. Alguns programas têm critérios de seleção específicos que funcionam como diferenciais competitivos para seus clientes. Numa avaliação unificada/conjunta, todos os rebanhos teriam seus animais avaliados para todos estes critérios – reduzindo a competitividade entre os rebanhos e entre os programas.

Os pontos fortes de cada programa podem ser distintos. Em alguns casos, o diferencial competitivo está na qualidade e volume de dados coletados ao longo de décadas. Em outros, as ferramentas de gestão da variabilidade genética ou os sistemas de acasalamento representam o principal avanço. Em outros ainda, a qualificação técnica das equipes envolvidas e a capacidade de interação com os criadores são fatores determinantes para o sucesso das avaliações e para a implementação efetiva das estratégias de seleção.

Apesar das razões citadas anteriormente, o que se observou nestes mais de vinte anos após a primeira iniciativa de unificação de sumários foi o aumento da competição entre os programas de melhoramento genético e uma evolução genética significativa na raça Nelore. Os programas de melhoramento são executados por empresas (privadas, públicas ou parcerias) que procuram contribuir para a melhoria da produção de carne bovina por meio da promoção do melhoramento genético dos rebanhos. Cada programa – empresa desenvolve e oferece um conjunto diferenciado de ferramentas e soluções parar auxiliar os rebanhos assessorados na promoção do melhoramento genético de maneira mais eficiente. O sumário de touros é apenas uma dessas ferramentas.

Além dos sumários, os programas oferecem apoio técnico qualificado para delineamento de projetos de melhoramento em rebanhos de seleção e comerciais, ferramentas de identificação de novos materiais genéticos, de coleta de dados, de gestão dos resultados das avaliações genéticas, de acasalamento, de gerenciamento da variabilidade genética, de avaliação da evolução do rebanho, de comparações de um rebanho com grupos específicos (benchmarking), treinamentos para técnicos e criadores.

Graças a esta necessidade de se manterem competitivos, os programas desenvolveram critérios de seleção relacionados com precocidade, fertilidade, qualidade da carcaça e eficiência capazes de promover mudanças genéticas e econômicas significativas, viabilizaram a aplicação de ferramentas genômicas para avaliação genética e seleção precoce de reprodutores com maior assertividade. Os programas certamente contribuíram para redução do intervalo de gerações, qualificação de técnicos e criadores, conscientização da importância da utilização de material genético superior, redução da defasagem genética entre os rebanhos de seleção e os rebanhos comerciais, e melhoria de indicadores de produção e econômicos da bovinocultura de corte.

Caso existisse apenas um único sumário para toda a raça, muitos dos diferenciais competitivos entre programas tenderiam a desaparecer. Com a redução dessa competição, o incentivo para desenvolver novas metodologias, critérios de seleção e ferramentas de análise também provavelmente diminuiria. A história recente do melhoramento genético mostra que a existência de múltiplos programas estimulou o desenvolvimento de novas características, o uso de tecnologias genômicas e a criação de ferramentas mais eficientes de gestão genética.

A existência de vários sumários de touros para uma mesma raça não deve ser vista necessariamente como um problema, mas como uma consequência natural da diversidade de programas de melhoramento e das diferentes populações nas quais os animais são avaliados. Cada programa reúne rebanhos, técnicos, critérios de seleção e estratégias próprias, formando sistemas cooperativos de geração e utilização de dados. Ao mesmo tempo, a coexistência de diferentes programas cria um ambiente de competição saudável que estimula inovação metodológica, desenvolvimento de novas ferramentas e aprimoramento contínuo das avaliações genéticas. Nesse contexto, os sumários de touros não são apenas listas classificatórias de reprodutores, mas a expressão dos diferentes caminhos pelos quais os programas buscam contribuir para o avanço genético e a sustentabilidade da bovinocultura de corte.


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