Edinburgh Alliance for Complex Trait Genetics

IMG_5689IMG_5687

Edinburgh Alliance for Complex Trait Genetics. Lucky 13th meeting, Friday 27th October 2017. Royal Society of Edinburgh. 22-26 George Street, Edinburgh.

Existem evidências científicas de que o Nelore é mais resistente aos carrapatos do que outros grupos genéticos. Ao longo do processo de evolução e de seleção, os animais mais infestados podem ter sido identificados e descartados. O carrapato é visível, e sua presença incomoda os animais, e os donos dos animais. Entretanto, isso não é trivial quando tratamos dos parasitos gastrointestinais. Esses últimos não são visíveis a olho nu, e os exames parasitológicos não são realizados rotineiramente. Parece mais fácil aplicar produtos químicos, de acordo com os protocolos recomendados pelos fabricantes, do que implementar outras técnicas de controle de verminoses. Então, se houve evolução do Nelore no sentido de desenvolvimento de resistência aos parasitos gastrointestinais, ela pode ter sido consequência da seleção natural ou da seleção indireta. Mesmo assim, as poucas evidências encontradas não são suficientes para afirmar que o Nelore é mais (nem menos) resistente aos parasitos gastrointestinais do que outros grupos genéticos. Mas além dessas diferenças entre grupos, o melhoramento genético também depende das diferenças dentro dos grupos genéticos.

Evidências sobre a existência da variabilidade genética para resistência a parasitos (ecto e endo) em outros grupos de bovinos, especialmente nos taurinos, estão disponíveis na literatura científica. Entretanto, a despeito de um trabalho publicado em 2015 (disponível aqui), é necessário obter mais evidências científicas sobre o tema. Mas se existem evidências da existência da variabilidade genética para resistência a parasitos em outros bovinos, por que ainda é necessário estudar isso em Nelore?

  1. Por que uma parte muito importante dos 210-220 milhões de bovinos do Brasil é Nelore, ou seus cruzamentos. E qualquer particularidade nesse grupo pode inviabilizar a aplicação dos resultados obtidos com taurinos. E isso pode ter um impacto financeiro grande para os pecuaristas.
  2. Por que os criadores (mesmo os que trabalham com Nelore) utilizam anti parasitários de maneira generalizada. Se isso realmente é necessário, é possível que tenhamos um indicativo de que o Nelore não é tão resistente como se pensa, ou que as cargas parasitárias nos rebanhos comerciais estão acima daquelas que os animais tiveram de enfrentar ao longo do processo de evolução. Por outro lado, se a utilização de anti parasitários não for necessária, os pecuaristas devem estar gastando dinheiro desnecessariamente.
  3. Por que a utilização inadequada dos tratamentos químicos pode implicar no desenvolvimento de parasitos resistentes aos princípios ativos, pode deixar resíduos nos produtos de origem animal e contaminar o ambiente. Então, a seleção de animais mais resistentes poderia contribuir para melhorar a eficiência dos programas de controle de parasitoses, reduzir o impacto ambiental e melhorar a segurança alimentar.
  4. Por que o conhecimento da variabilidade genética para resistência, e das relações entre resistência para diferentes parasitoses, podem auxiliar no delineamento de estratégias alternativas para reduzir o impacto dos parasitos na produção animal.

Portanto, uma das questões que precisava ser respondida nesses dois primeiros meses era: Existe variação genética para resistência a carrapatos e parasitas gastrointestinais em Nelore?

Para responder a esta questão, foram utilizados os dados de contagens de carrapatos, nematódeos gastrointestinais e Eimeria app. de tourinhos Nelore criados a pasto e submetidos a infestações naturais. Esses dados foram coletados em um experimento de campo, realizado na Fazenda Mundo Novo, em Uberaba. Os animais utilizados pertencem a linhagem Lemgruber, amplamente disseminada no Brasil. O experimento foi realizado entre abril de 2011 e maio de 2017. Nesse período, foram coletados aproximadamente 8.000 registros, em mais de 1.700 tourinhos (as fêmeas também foram avaliadas, mas seus dados serão avaliados para outra finalidade). O Nelore Lemgruber está presente em muitos outros rebanhos brasileiros, e os animais são criados em condições ambientais muito próximas das condições comerciais. Esses fatores contribuem para a aplicabilidade dos resultados. Além disso, a Fazenda Mundo Novo possui escrituração zootécnica invejável, o que contribui para dar segurança a todos os dados utilizados.

No material da palestra (Presentation2710207Ftoral), foram apresentados os resultados de modelos estatísticos específicos para dados de contagem (modelos com distribuição de Poisson com excesso de zeros). Esses modelos são diferentes daqueles modelos utilizados para características com distribuição normal, como p.ex. o peso, e as interpretações dos resultados também são diferentes. Os resultados permitiram concluir que:

  1. Existe variabilidade genética para resistência a carrapatos e parasitos gastrointestinais no Nelore.
  2. As cargas de carrapatos e nematódeos gastrointestinais podem estar geneticamente correlacionadas.
  3. Os valores genéticos para as contagens ( que no modelo utilizado são expressos em uma escala adjacente – diferente da escala das contagens de parasitos) são úteis para a seleção de animais resistentes.

Entretanto, ao longo desse período de análise dos dados, nos deparamos com mais perguntas do que respostas. E muitas dessas perguntas precisam ser respondidas o mais rápido possível. Ao longo do mês de novembro, vamos tentar encontrar outras respostas (e provavelmente mais perguntas!!) e preparar o rascunho do primeiro material científico.

De modo geral, acredito que o público ficou interessado pelo tema, e também pelo Nelore. Fiquei bastante satisfeito por receber várias perguntas após a apresentação. Mas duas questões foram particularmente interessantes de responder.

  1. Fui questionado a respeito do número médio de parasitos na amostra utilizada, e sobre a utilização de infestações naturais (ao invés de infestações artificiais). O número médio de contagens realmente é menor do que o número de parasitos encontrados em outros trabalhos (sempre com grupos genéticos diferentes), mas mesmo assim foi possível identificar diferenças genéticas entre os animais. E, num experimento em larga escala, realizado em condições comerciais de criação, a utilização de infestações artificiais não é uma prática viável.
  2. Uma das organizadoras do evento fez uma explanação sobre a importância da adaptabilidade das espécies ao longo do processo de evolução, sobre sua experiência com casos de fotossensibilidade, e acabou me perguntando como um animal branco pode ser adaptado as condições tropicais (especialmente relacionadas com incidência de radiação solar). Ela ficou surpresa ao saber que debaixo dos pelos brancos do Nelore existe uma pele escura, que certamente contribui para a adaptação.

Além disso, confesso que me senti bastante pressionado quando descobri que Bill Hill, Brian Charlesworth, Chris Haley, Sara Knott (esses dois últimos são os autores de um método muito utilizado no passado para mapeamento de QTLs – a regressão de Haley e Knott), e outros notáveis estavam na plateia. Aliás, essa é uma das coisas que mais tenho reparado por aqui. “Os notáveis” participam ativamente de todos os eventos, desde o jornal club, passando pelos seminários apresentados por simples e desconhecidos (ainda) estudantes de pós graduação, até os eventos mais renomeados da sociedade científica. Mas foi um bom teste, espero ter passado.

IMG_5672

Anúncios

Um comentário sobre “Edinburgh Alliance for Complex Trait Genetics

  1. Excelente texto Fábio. Precisamos lidar corretamente com o que a natureza, através da seleção natural, nos proporcionou. A convivência do nelore com os mais diversos parasitas é milenar e cabe a nós tirar proveito dessa situação. Às vezes estamos adotando técnicas de manejo dispensáveis, principalmente se houver a opção genética proveniente de trabalhos de seleção focados em realçar a característica de adaptação ao convívio com esses parasitas.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s